
Vinho em PautaColuna da semana
Não sei se acontece com você, mas basta os termômetros começarem a cair para que eu sinta vontade de trocar a cerveja gelada por uma taça de vinho. É quase automático. Os pratos mudam, os encontros mudam e, de certa forma, a própria experiência à mesa também ganha novos contornos.
Nessa época do ano, os restaurantes começam a destacar massas, risotos, assados e caldos mais encorpados. Em casa, receitas que passaram meses esquecidas voltam ao cardápio. E é justamente nesse cenário que os vinhos tintos parecem encontrar seu momento de maior brilho.
Mas será que o vinho muda quando chega o inverno?
Na verdade, quem muda somos nós.
O mesmo vinho que pode parecer pesado em uma tarde de janeiro com 35 graus muitas vezes se mostra perfeito em uma noite fria de junho. O clima influencia a forma como percebemos sabores, aromas, e até mesmo o prazer que sentimos ao consumir alimentos e bebidas.
Quando o frio aparece, nosso organismo parece buscar conforto. Refeições mais quentes, sabores mais intensos e experiências de acolhimento. Não é por acaso que tintos mais estruturados, como Cabernet Sauvignon, Tannat, Syrah e Touriga Nacional, passam a ser mais valorizados nesse período.
Existe também um aspecto emocional que raramente aparece nas fichas técnicas. O inverno convida à permanência. A sentar mais tempo à mesa, a conversar sem pressa, reunir amigos e familiares em torno de uma boa refeição. E o vinho encontra espaço nesses momentos.
Talvez por isso muitas pessoas associem a bebida ao aconchego. Não apenas pelo que está dentro da garrafa, mas por tudo aquilo que ela representa.
Isso não significa que os vinhos brancos e rosés devam desaparecer durante os meses frios. Há excelentes brancos mais estruturados que acompanham bem pratos de inverno, como por exemplo os Chardonnays com passagem por barrica, que costumam apresentar notas de manteiga, baunilha e frutas maduras, harmonizando com risotos, aves assadas e sopas cremosas.
Brancos portugueses de castas como Encruzado, do Dão, e Antão Vaz, do Alentejo, também merecem destaque pela boa estrutura e intensidade aromática. Sem falar dos brancos da Borgonha ou alguns Vinhos Verdes de perfil gastronômico, que mostram que frescor e complexidade ficam muito bem à mesa.
Mas é difícil negar que os tintos parecem conversar com mais naturalidade com a estação.
No fim das contas, o vinho não muda de personalidade quando o frio chega. Quem muda é o ambiente ao seu redor. Mudam os aromas que saem da cozinha, mudam os pratos servidos à mesa. E talvez seja essa a beleza do vinho: ele não é apenas uma bebida. É também uma companhia para os momentos que escolhemos viver.
Saúde!
Sensação
Vento
Umidade




